Existência

Qual é o valor de uma existência?
Como poderia ser possível um ser humano se dispor apenas da utilidade de outro, e não de seu valor existencial? Como pode ser real o oportunismo em meio a tamanho caos apresentado-nos neste mundo?
É tão confortante acordar e saber que existem pessoas em tua vida de grande valor. É tão desconcertante ir dormir e perceber que metade destas pessoas, são ilusões.
Uma triste realidade é o fato de que uma massacrante maioria de pessoas só estão ao teu lado enquanto tu, de alguma forma, é útil. Poucas são as pessoas que conseguem enxergar teu valor existencial. Poucas são as pessoas que conseguem enxergar em ti mais do que tu realmente é. E como identificar essas pessoas? Como distinguir elas do resto da escória humana?
Jamais fui capaz de concretizar esta distinção, porém sempre dei meu melhor a fim de dar o devido valor a cada alma perdida nesta imensidão.
Nos últimos dias, tive fortes dores de cabeça. As causas mais prováveis são a decepção e a amargura. Noticiei personalidades que gostaria de exonerar da minha memória. Presenciei atitudes, no mínimo, repugnantes. Percebi que algumas pessoas, que eu julgava absolutamente livres dessa futilidade massiva, são tão venenosas quanto, ou mais. Jamais cogitei a possibilidade de sentir esta amargura com origem de atitudes destas pessoas supracitadas. Mas estava enganado. Almas que eu julgava amigas apunhalaram-me e mostraram-se tão superficiais quanto as outras.
Mas nem tudo é um lamento sem fim, nem tudo é um mar de lamúrias. Ao fim do dia, deito minha cabeça sobre um travesseiro e sinto fortes dores no peito. Tive de conter minhas emoções, e agora meu peito doía com a tamanha tristeza que sentia. Começo a pensar em todos os momentos irreais que vivi. Questiono ao vazio qual seria o sentido da vida. Teria eu que permanecer aqui? E quanto tempo mais eu aguentaria? Se é essa a vida, falta muito pra acabar a parte ruim? Em meio a uma crise existencial associada a uma depressão, eis que emerge do âmago de minha memória um sorriso. Doce, suave e puro. Em questão de segundos, está pacífica memória faz minhas dores evanescerem e transfere para meu rosto um mesmo sorriso. Lágrimas surgem de meus olhos, enquanto deleito-me em imensa paz interna.
Foi naquele momento que tive a sensibilidade de perceber que não importa o quanto o mundo queira me fazer desistir, não importa o quanto as pessoas se mostrem vazias, não importa quão grandes sejam as minhas dores. Se eu puder ver aquele sorriso, se eu puder sentir aquela pele macia, se eu puder contemplar aqueles fios de cabelo dourados e compridos, e se eu puder derramar uma lágrima por toda a eternidade ao lembrar daquela alma tão pura, nenhum desastre do destino vai me derrubar. Não só me dei conta do quão alto era o valor daquela existência para o meu coração, mas também entendi que não posso me culpar pela ignorância das pessoas. Se o mundo não consegue distinguir valor de utilidade, eu não preciso e sequer devo me culpar por isso, porque eu sei o valor de cada alma que me cerca, eu sei a utilidade de cada uma e, acima de tudo, eu sei que o valor de cada uma é mais importante que sua utilidade.

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