Fuga
Em meio a um turbilhão de luzes e reflexos sem sentido algum, percebo que não há luz mais encantadora que a luz das estrelas.
É uma noite escura, vazia e fria. Cofortante é ter sensibilidade para adorar as tão distantes luzes cósmicas. Tão brilhantes, tão distantes, tão imersas num lago negro chamado universo.
Sento-me agora em um penhasco. Mesmo sob a escuridão da noite, este lugar conta com uma beleza exuberante. A gélida brisa noturna vem de encontro ao meu rosto. Tão fria ela é que causa dor, mas isto torna-se frívolo perante a exuberância deste lugar.
Aquelas luzes distantes parecem mais brilhantes agora que estou afastado da iluminação artificial. Sinto como se cada ponto cintilante fosse uma dinvidade a sorrir para mim, trazendo-me a leve sensação de esperança e conforto.
Imerso nesta doce ilusão, enxergo neste instante uma luz que destacara-se. Penetrante e de tom azulado, sua intensidade aumentava a medida que minha alma afundava na imensidão das estrelas. Seu brilho agora era incomparável, claramente destacava-se. Enquanto admirava aquela forte luz, minha mente deixava meu corpo para retornar às mais distantes memórias.
Memórias estasque refletem em meu alento. Lembranças adormecidas no âmago de meu coração despertavam aos poucos. Momentos estes que agora sugavam toda a paz que eu sentira a pouco. Sinto como se minha alma fosse tragada para a escuridão lenta e dolorosamente. Meu rosto, que momentos atrás sorria em paz, encontrava-se agora triste e perdido naquela luz, que a cada segundo parecia brilhar mais forte.
Eis que então, aquela memória desperta. A memória que havia tirado noites de sono, a ferida que demorou cicatrizar, o inferno que eu fingia ignorar, o erro que eu não pretendia consertar. Como o som do disparar de uma arma em meio a uma calma floresta, esta memória faz-me remoer todos os momentos de amargura, solidão , desespero e tensão que eu já havia enterrado.
O penhasco parece clamar por meu nome. A solidão assombrosa que instalou-se de forma abrupta parecia empurrar meu corpo para o fundo do penhasco. Toda a razão que eu tivera algum dia para continuar vivendo esvaiu-se rapidamente. Todos os planos sociais e pessoais parecia não mais fazerem sentido. De que adianta construir uma estrutura nesta vida, se ao final de tudo voltaremos a ser o que a muito tempo fomos: Poeira das estrelas?
Quando, já em pé, estava para realizar o pedido que incessantemente escutava soar no fundo do penhasco, sinto meu pescoço arrepiar levemente. Raramente minha intuição tornava-se falha. Havia alguém junto a mim.
Olhos fixos em lugar nenhum, corpo paralisado e consciência retornando a si com demora. Quem poderia ter encontrado este lugar? Perdido em meio a uma boba intuição, busco em meu fracasso o que resta da minha dignidade para virar o meu corpo e encarar quem quer que fosse.
Quando finalmente o faço, como um furacão que destrói sem piedade várias vidas, um silêncio atormentador expulsa hostilmente o som da calma e gélida brisa que fizera-se presente por todo esse período. Diante de mim estava a garota causadora de todas as memórias que a luz, que continuava a brilhar fortemente, trouxera a mim.
Pele clara, olhos azuis, cabelos prateados na altura do ombro. Sua imagem era pacífica, angelical. Mas suas memórias eram infernais. O desespero assolava a minha alma. O extase emocional que corria em meu corpo tirara toda a minha capacidade de reação. Ela sussurra algo.
O silêncio é quebrado por seu sussurro. A brisa não retornara e aquele brilho azul nos céus já tomava proporcões descomunais, mesmo que ainda passasse despercebido à minha pessoa. Sem consciência dos meus atos, troco passos em direção aquela figura que desolara minha vida. Como em um transe, a doçura transmitida por sua doce e suave voz fizera-me ignorar por completo a luz que incessantemente crescia nas minhas costas. Mais alguns passos são trocados, mas o sussurro ainda é incompreensível. Percebo que trocaria tudo de concreto desta vida, e até mesmo o que viria um dia a concretizar, apenas para poder decifrar este sussurro. Ela recua.
Ao perceber o seu recuo, como em uma súbita transição dos filmes de suspense, meu estado de transe aos poucos vai evanecendo-se. Dou-me conta, por fim, que aquela luz azul já tinha um brilho de proporções astronômicas. Se não estivesse espantado, diria concientemente que esta luz era algo de origem sobrenatural. O brilho desta luz claramente incomodava os não só a minha visão, como também a da garota. O sussurro soa um pouco mais limpo desta vez.
Pare... Por favor.
Não pude compreender o sussurro por inteiro, mas julgando pelas circunstâncias, concluí que ela implorava para que eu parasse de alguma forma aquela luz. A tensão voltara ao meu corpo. Como poderia parar uma luz sobrenatural como esta? Antes que eu pudesse ter a resposta, a tensão foi expulsa do meu corpo por um medo. Aquela garota estava sendo sugada pela luz. Impulsivamente corri na direção dela. Estava decidido a parar aquela luz, não importava como.
E, de alguma forma, realmente o fiz. A luz apagava-se aos poucos, e junto com a luz a garota deixava este mundo. A escuridão voltara para mim. Finalmente recuperei a consciência, porém tarde demais. A garota não deixara este mundo. Ela continuava sobre o penhasco. Eu, porém, havia cegamente caído em seus encantos. Agora, só me restava esperar o impacto que meu corpo sofreria no fundo daquele penhasco. A escuridão finalmente me engoliu por inteiro.
Mesmo com o coração cheio de pesares, pude compreender no último instante da minha vida que, na verdade, a garota de instantes atrás era apenas meu destino. Ela em nenhum momento foi real. Sempre foi criação da minha subconsciência para suportar facilmente os devaneios da vida. Porém, mesmo sendo apenas uma ilusão, ela me mostrou o real sentido do que chamam de vida. Meus últimos passos em vida foram em uma tentativa desesperada de ajudar este anjo. Pude perceber então que a vida é o agora e nada mais. Pude perceber então, que precisamos uns dos outros, e desesperadamente. De que vale uma vida, se solitária? Se nada fazemos para o próximo, qual o sentido de vivermos já que voltaremos ao pó?
Vejo em terceira pessoa meu corpo no chão. Com um sorriso leve no rosto, espero pacíficamente pelo próximo passo. Avisto aquela luz azul novamente nos céus. Olho uma última vez para meu corpo, e parto em direção a luz para poder novamente encontrar aquela garota. Para poder novamente encontrar aquele anjo. Para poder novamente encontrar meu destino.
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