Krill


Foi quando meus ouvidos se sensibilizaram e notaram a inconstância das forças ultra-mundanas. O brado impactante e aterrorizante do enviado dos deuses se misturou ao som do choque entre escamas seguido de um desespero inquietante. O dragão justiceiro apocalíptico foi aos poucos se mostrando visível entre as espessas nuvens tempestuosas. Seu voo não era linear, e deixava transparecer uma confusão no olhar. Algo havia acontecido.
Uma pequena luz surge entre as descargas elétricas dos céus e numa velocidade surpreendente se expande em direção ao dragão elétrico, que tenta, em vão, desviar do que quer que seja aquela luz. Outro brado marcante se faz audível, e numa velocidade inimaginável um gigante vulto vai de encontro ao paralizado dragão elétrico.
A esperança já havia se esgotado. Afinal, o que poderia estremecer a confiança de um dragão? Fomos sentenciados à destruição, só nos restava aguardar o majestoso fim dos tempos. Mas agora, com este imenso vulto chocando-se no ar contra o martelo da justiça dos deuses se fazendo planar e observar, mesmo sem compreender, a esperança retoma os corações destas pessoas.
Um outro ser transcendente do que é mundano se faz visível, mas antes que eu pudesse me deslumbrar, esta criatura impetuosa dispara mais uma rajada flamejante daquela luz que eu vi por trás das nuvens. A linha crescente de fogo que este segundo dragão disparou em direção ao dragão elétrico preenche os céus escuros com sua vermelhidão em mesma proporção que nossos corações são retomados pela esperança. As razões são desconhecidas, mas o apocalipse enviado pelos deuses estava sendo interrompido por outro ser enviado por eles.
Krill, o dragão flamejante deslizava por entre as nuvens pesadas a medida que atacava sem piedade o dragão elétrico. Mesmo sendo a mesma espécie de enviado, ele parecia ter ordens concretas para permitir nossa existência por mais tempo. E em poucos minutos, Shars havia sumido. Não se sabe se fora abatido, ou o que de fato aconteceu. O céu se abriu, e um vento leve se fez sentir. O dragão flamejante deu seu último rugido antes de partir e sumir nos céus.
Testemunhamos em pleno pavor a força dos deuses, e percebemos que nem mesmo eles são perfeitos. A diferença de opiniões entre suas sentenças ocasionou esta batalha lendária entre os dragões enviados dos céus. Notamos nossa insignificância, e como podemos ser exterminados sem qualquer esforço. Não sabemos nossa missão nestas terras, mas sabemos que ainda não chegou a hora de dizermos adeus.

Confira o precursor espiritual deste texto: Castigo.

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