Panorama



A forte e gélida brisa noturna vem de encontro a minha pele. Deitado sobre estas rochas, olho para o céu e vejo o quão bonito é o emaranhado de constelações. Apesar desta sensação confortante, sinto como se faltasse um pedaço da minha alma.
A luz do luar começa finalmente a chegar aos meus olhos, dando origem às silhuetas das plantas ao redor, antes escondidas na escuridão. Fecho meus olhos, e permito que o calmo som das águas invada o meu coração e console-o por sua ausência. De fato estou em um local de beleza estonteante, mas nenhuma beleza, seja ela artificial ou natural, pode equivaler-se ao brilho desorientador que posso enxergar nos teus olhos. Nenhuma beleza que não a deles daria fim à minha saudade.
Por um momento fico em silêncio, deixando que a natureza ao redor me consuma por inteiro, enquanto sonho com sua companhia.
Abro calmamente meus olhos, e vejo que não só seus raios, mas a Lua por inteira já tornou-se visível. Sua forte coloração amarela e seu brilho intenso consequentemente remetem-me à coloração dourada que seus cabelos obtêm sob a luz do Sol. Cada detalhe a minha volta faz-me lembrar você.
Levanto e contemplo os arenitos que enfeitam o panorama que enxergo. A Lua brilha de forma tão intensa que torna a visão completamente funcional, mesmo em âmbito noturno. Uma destas formações arenosas me prende por um instante.
O formato desta pedra assemelha-se à um rosto. Um rosto de uma índia, segundo estudiosos. Os olhos da índia facilmente remetem-me ao teu olhar, tão penetrante. Pouco fechados, transmitindo a sensação ora de tédio, ora de ódio. É inevitável então lembrar dos momentos em que presenciei suas fraquezas e vi seus olhos inundarem tanto de forma a transbordar. Uma tristeza me corrompe quase que instantâneamente. É injusto que anjos como você sofram com este mundo caótico.
Agora, ouço um ruído de natureza desconhecida. Um pio. Ao longe, minha visão por fim desvenda o mistério que instalara-se neste cenário. Aquela coruja, que pude identiificar no horizonte, escondida nos galhos imersos na escuridão desta floresta, imediatamente recorda-me da tua doce voz. Como uma supernova que atravessa o ar, seu rosto rasga a imensidão da minha subconsciência e atinge a minha alma. Como a das bromélias alojadas nestes arenitos, sua beleza é exótica e fenomenal. Minha alma se carrega de alegria.
A alegria, na verdade, não instalou-se por inteira. O misto de alegria, paz, tristeza e guerra corrói a plenitude de minha consciência. Daria a tudo que tenho, e até o que um dia poderia conquistar, para tê-la aqui, agora, comigo.
Vejo no céu uma rápida luz rasgar a escuridão. Supersticiosamente, faço um desejo. Porém, enquando este não se realiza, permaneço desempenhando meu papel. Sou, e eternamente serei como uma estrela, que nunca deixa de te guiar, mesmo que muitas vezes não percebas minha presença.

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