Sensações



O cheiro de frituras invade minhas narinas com uma potência inigualável. Nem mesmo o som alto de minhas músicas favoritas podem combater os ruídos do lado de fora. O som de grande quantidade de objetos mecânicos se movendo é alto o suficiente para transpor-se sobre meu fone de ouvido. O fluxo de pessoas que enxergo para uma janela suja é intenso, assim como a solidão que sinto. Em meus ouvidos soam as palavras do meu artista inspirador, estas ditas antes de tocar a música principal do show. Música esta, que apenas na melodia já equivale a minha imensa tristeza. Enquanto escrevi estas palavras, converso com uma amiga, que sequer imagina que dentro de minhas palavras confortantes existe uma alma implorando por salvação. E a cada frase cantada em meus ouvidos, mais pareço isolar-me das pessoas. Mesmo sendo triste, a música me transmite uma paz especial. As portas do ônibus se fecham, e aos poucos sinto o cheiro de fritura esvair-se. O fluxo de ônibus é superior a capacidade de vazão da saída deste terminal, pouco o ônibus desloca-se antes de parar novamente para esperar sua vez de deixar o terminal. A música acaba, dando lugar a outra música que faz-me lembrar de sentimentos dolorosos que há muito tempo senti pela garota com quem falo. As luzes amareladas dos postes da cidade passam pelos meus olhos da mesma forma que sinto a vida escorrer das minhas mãos. Olho para as pessoas do ônibus e não enxergo nada além de almas carregadas pelo destino que a sociedade as impõem. O coro do público ressoando em meus ouvidos fazem-me imaginar a emoção de cantar uma música e ouvir todos cantando a mesma em uma só voz. Meu coração parece não saber o que fazer com o buraco que agora se encontra nele. Riffs pesados quebram esse cenário de emoção e me fazem retornar ao mundo material. O ônibus, que há pouco parara em um sinal fechado agora já movimentava-se novamente. Agora já não mais via as luzes, ou talvez apenas não me importava mais. Meu olhar se perdia no horizonte escuro enquanto o refrão da música iniciava. Minha amiga sequer nota a imensidão de tristeza que carrego em minhas palavras, e enquanto falamos sobre coisas fúteis, o ônibus curva-se à esquerda, entrando em uma via movimentada. Apesar dos brilhos fortes das luzes desta avenida, o que me encanta é a amarelada e fosca luz da lua em um estágio inicial da crescente, antes fora do meu campo de visão. Lembrar que nem mesmo a lua tem sua própria luz faz-me ampliar minha dor. Olho disfarçadamente para o lado e enxergo uma garota com lágrimas nos olhos, tentando ser forte e não chorar. Mal sabe ela que próximo a ela estou eu, acarretado de tristezas e solidão. O mundo é cruel, de fato. Tentamos cada dia mais não deixar transparecer nossas fraquezas mais profundas. Mas este é o jogo da vida, fingimos saber viver, fingimos que sabemos o que fazemos, fingimos para o mundo que somos inabaláveis, mas na escuridão de nossas almas, sabemos que não passamos de um ponto azul no céu. Essa reflexão há de durar por mais algumas horas, até eu poder voltar em paz para o aconchego do lar, onde pessoas hipócritas e sem sensibilidade me aguardam. Então, eu poderei por fim deitar minha cabeça e fechar meus olhos, para então acordar e viver outro dia em profunda solidão, aceitando o fato de não poder fazer nada para mudar o meu mundo

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