Shars
Centenas de passos são dados em direção contrária à qual eu corro em total angústia. Todos os gritos de medo e terror são arduamente ignorados a medida que eu alcanço o topo da torre de guarda.
A minha espera, escuto o relatório dos observadores, que se tornam extremamente desnecessários, afinal, o problema que trazia o caos aos corações daquelas pessoas que corriam para baixo era visível nos céus.
Dezenas de descargas elétricas percorriam gloriosas e pavorosas nuvens negras a cada minuto. Aquilo claramente não se configurava como uma forte tempestade, pois tinha magnitude absurda para uma mera classificação mundana como esta. Tamanha fúria das forças elementais não poderia ser conjurada por algo deste mundo.
Temendo o pior, ordenei que todos os seres vivos ali presentes apenas buscassem proteger a quem amam e que sobrevivessem, pois estavam prestes a presenciar algo jamais visto nesta era.
Em meio às minhas palavras, a chuva finalmente veio a atingir nossas vestes. Mas não era uma chuva qualquer. Era a confirmação do meu temor. Junto de olhares trêmulos e de um silêncio absoluto, todos pavorosamente éramos banhados em uma chuva de sangue.
Os trovões se intensificaram, e quando dei por conta todos que me rodeavam já haviam seguido minhas ordens. Ou seja, eu estava sozinho, aguardando para presenciar o poderio do que vem de outro mundo.
Um uníssono rugido ecoa pelos ares no momento em que uma sequência de raios é disparada sobre as terras que cercavam esta cidadela. Diante do absurdo poder que eu iria presenciar, permaneci paralisado, aguardando o destino ao qual este povo estava condenado.
E então, do meio das grandes nuvens negras, ele finalmente se revela. O dragão elétrico, também chamado de Shars, o dourado. O lendário dragão relatado em diversas lendas. De posse do domínio sobre as descargas elétricas, era relatado como um supremo habitante do mundo dos deuses e conhecido pelo forte senso justiceiro vívido dentro daquelas enormes escamas douradas que cobriam sua carne negra, figura deturpada somente por seus olhos vermelhos e flamejantes.
Fechei os olhos e pude ver a insensatez milenar de nós, seres humanos, habitantes desta era. Nos auto-intitulamos seres ávidos e inteligentes, usurpando de tudo que podíamos, jamais considerando qualquer consequência. Percebi, também, que era chegada a hora do juízo final.
Não havia nada que nós poderíamos fazer contra tamanho poder divino. Apenas algo que transcende o mundano poderia nos salvar de nossa extinção. E, enquanto devaneava sobre o solene desalento de nossa espécie, só me restou acompanhar a fúria elétrica cortando os céus deste dia memorável.
Confira o sucessor espiritual deste texto: Castigo.
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