Tempestade
Ontem meu respirar foi lento, profundo e demorado. Cada gota vinda ds imensidão negra acima de mim torturava minha pele enquanto meus olhos descansavam por um breve momento. Tanto caos e desespero trouxeram o cansaço, e agora eu sucumbia e deixava que o mundo não dominasse por um breve instante.
Mas não via problemas nisto, sabia que logo poderia e conseguiria tomar as rédeas do meu destino. Mesmo perdido neste inesgotável horizonte de águas negras, o desespero evanescia a medida que meus olhos tiravam o merecido descanso. Os incessantes trovões e a ventania ensurdecedora pareciam se exilar do meu mundo, tomado por uma estranha paz em meio à tormenta.
Meus olhos tentam se abrir e são fortemente atacados pelas gotas grossas desta temoestade. De olhos fechados, me levanto para que possa abrir meus olhos e contemplar o caos deste infinito oceano de águas negras. A escuridão do céu se reflete nas águas que me cercam e em meio a um cenário apocalíptico, a paz se faz presente. Senti prazer em poder observar tamanho poder da natureza, de poder ver as enormes ondas se chocando contra o cais, de poder admirar nos horizontes os clarões dos trovões que atacavam impiedosamente as longínquas terras de além do meu horizonte.
Nem mesmo o medo, por estar totalmente isolado e em meio a uma tempestade, da morte era capaz de aterrorizar a minha alma. Mesmo que morresse, não conheceria ninguém vivo que pudesse ter desfrutado de estar de pé, presente, neste cenário caótico e incrível. A morte parecia ser um preço justo para ter este privilégio, e não me incomodava em ser cobrado quando menos esperasse.
E com uma paz de espírito transcendental, notei a inconstância das placas de madeira onde pisava. Vi, então, a água inundando imediações e uma agitação maior num ponto distante da maré negra. Uma onda absurdamente gigante se configurou sobre meu olhar, e se projetou sobre tudo o que me cercava. O barulho da água entrando em meus ouvidos enquanto eu soltava o ar era agonizante, mas eu já tinha entendido o meu destino. Pude uma única e última vez não só ser espectador de uma fúria grotescamente linda da natureza, mas também vítima. E enquanto o mundo ao meu redor escurecia e sentia a água afogar meus pulmões, agradecia em silêncio ao mundo por ter feito ao menos do fim da minha vida um terminar digno.
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