Três Pedaços de Razão


A teimosia propaga profunda tristeza em meu peito. Sei que não devo sentir o que sinto, e já repeti muitas vezes que tu não faz bem nenhum para mim.
Por que continuar nesta dor, nesta angústia? Para que contar os dias para te ver, mesmo sabendo que a felicidade de estar contigo não suprime a tristeza ao ter que te deixar? Para que me prender ao meu próprio desalento?
E quantas vezes já desejei o melhor pra ti, a fim de que seguisses teu caminho, para que pudesse tirar a tuas memórias da minha alma. E quantas vezes acabei iludido, acreditando finalmente ter arrancado este sentimento do meu peito?
É como um homicídio diferente a cada instante em que estou contigo. Uma forma diferente de sofrimento a cada vez que me perco nos teus olhos. A felicidade se evanesce a medida que a lua aparece, e a dor única de te ver partir se torna constante por muitas horas.
Como pode, mesmo com tanta dor, eu não conseguir arrancar isto de mim?
E por muitas vezes já desejei que desaparecesse da minha vida. Mas no fundo, nunca quis te ver partir.
Eu não quero estar a salvo desta dor, eu não quero estar sóbrio. Eu quero você em meus pensamentos. Dentro dos meus sonhos, no fundo da minha alma. No final de tudo, a aparente solução de te tirar da minha vida, acaba por ser venenosa.

Andei até não ver mais os rastros do que um dia chamei de meus in aeternum. Distante de tudo, vaguei em busca de uma nova razão para batalhar. O veneno acabou, a guerra chegou ao fim.
Por tanto tempo insisti nesta mentira. Todas as emoções, desde as mais felizes até a destoante solidão. Tudo nada além de ilusão.
Numa busca incessante por uma fuga à tamanho sofrimento, saí em busca de nova vida. Tão longe eu fui, e tão pouco teve efeito.
A ilusão de ter chego tão longe foi se desfazendo lentamente como a luz do sol ao deixar a lua brilhar. Acreditava estar vivo novamente, e enfim ter encontrado uma nova razão pra viver. A guerra teria terminado, e nenhum de nós havia ganhado. O acordo de paz fora selado, e eu deixara, por fim, este meu amor de lado.
Subi em uma montanha e fiquei face a face com meu desalento. Eu havia andado por tanto tempo, e tinha gastado tanta energia para buscar a minha paz. Mas havia andado em círculos, e estava tão perto da guerra quanto antes.
Fugir do que está impregnado em sua alma é fugir do teu destino, e quanto mais tentar fugir, mais perto há de ficar.
A desilusão destruíra meu mundo, porém havia me ensinado uma importante lição de vida. Eu acabei por perceber, que não quero fugir dessa guerra. Não importa se vai ter um vencedor, não importa o quanto perdure esse conflito, eu não quero ser salvo, pois a dor de fugir do que já faz parte de ti jamais deveria ser sentida por alguém. É algo gritante, ensurdecedor, agonizante. Eu não quero sentir esta ilusão, eu quero continuar, guerrear, e com sorte acordar e ver que tudo foi apenas um pesadelo, e que nunca precisaremos de fato nos separar.

Durante muito tempo eu quis tirar de mim o que sinto por ti. Muitas vezes desejei que fosses feliz e tentei trilhar um caminho sem a tua presença. Por diversos momentos vivenciei relações de felicidade imensa sem qualquer relação à tua pessoa.
Mas eu sempre soube. No fundo, nunca pude verdadeiramente mentir para eu mesmo. Por mais doloroso que seja cada despedida, jamais conseguiria eu viver sem tua curta companhia. Cada sorriso, cada olhar, cada fala, cada momento. Nada pode ocupar o seu lugar, nada pode te tirar de dentro de mim.
Já faz parte da minha alma, já faz parte do meu mundo. Maior que a dor da tua partida, apenas a dor de tentar te tirar da vida. A ilusão de estar concretizando este ato até transmite falsa felicidade, porém no instante em que a mentira se cala e a voz da verdade ecoa na imensidão, a dor de ver o quanto eu perdi tentando fugir é gritante.
É sempre doloroso. Vejo você partir, vejo você chorar, vejo você entristecer, vejo você sem vontade de viver. Mergulho em teus olhos vazios e sinto teu desalento em mim. A solução para este problema sempre pareceu ser fugir, fingir, sumir. Mas sempre desejei que nunca partisses. O escape perfeito, afinal, tem um suave gosto de veneno.

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