Lembranças


E é assim para todas as coisas do mundo. Tanto as coisas boas como as ruins não são eternas, e nenhuma dor é tão grande que alguém não possa suportar.
A partida precoce da garota de sua vida era algo que não iria se apagar de sua memória, mas a dor e a revolta com o mundo foram suprimidas, pouco a pouco, com as memórias dos maravilhosos momentos que viveram juntos. Ele entendeu, de uma vez por todas, que não faz sentido reviver a todo instante a angústia de ela mão estar mais aqui. Sua forma de viver, antes tão amargurada pela solidão a qual ele mesmo se submetera foi brutalmente deturpada com o brilho daquela alma tão docemente altruísta. E qual seria o sentido de, após sua partida, viver cada segundo imerso em um ciclo de bombardeios de memórias mascarando a realidade dura do destino cruel que tirou sua garota deste plano mundano?
Ele não esqueceu de como o mundo foi injusto, mas esqueceu de lamentar. Sua alma se alimentava agora de cada lembrança boa, e de cada momento precioso vivido junto dela. Passava os dias perdido em sorrisos e olhares distantes, mas feliz e vivendo. Sentia em seu peito que entendia o significado da vida. Sentia que queria ser como ela foi. Sentia que queria trazer a luz para quem quer que estivesse imerso em suas profundezas de escuridão, fugindo do mundo, com medo de viver.
E em meio a suas derivações neste mar de lembranças doces de sua amada, encontrava a vontade de viver. Percebia a injustiça de, depois de tudo o que ela lhe proporcionara, afundar novamente na imensidão solitária de tristezas e angústias. Em prol da memória de quem lhe tirou desse caos interno, ele passou a viver como nunca, sem medo do que o destino pudesse lhe propor. Sentia em seu peito, que ela estaria sempre presente com ele, em alma e espírito, através de algo que ninguém poderia tirar dele: as lembranças.

Confira o precursor espiritual deste texto: Putrefação.

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