Putrefação



E como tudo que é bom na vida, ela se foi. Precoce e ironicamente, ela partiu. A garota do sorriso encantador que havia trazido a felicidade para ele, agora rasgava os limites da sua alma para aumentar ainda mais o buraco negro que o consumia.
Não tinha fantasia imaginável que pudesse suprimir tamanha dor. Ele não ligava mais pra dor, pro peso do mundo, Pará suas responsabilidades, nada mais importava. A escuridão que nasceu em sua alma fomentava uma mutilação interna capaz de trazer o pior dos delírios a uma mente humana. E ele estava ali, parado, incapaz de digerir o seu partir.
Se mostrou inteligentemente irritado com o destino. Não entendia a razão de ter sido presenteado com a companhia daquela garota e depois bombardeado tão brutalmente com a morte dela. Não era uma dor que iria passar, ele sabia que não ia superar. Não é como se ela tivesse apenas se mudado. Ela nunca mais voltaria.
E como fugir dessa dor? Se é que tem como. Pra que essa vida sem sentido? Ele dormir e acordava todos os dias para ver ela, com toda sua alegria, espontaneidade e doçura, inundar seu dia com uma maré de boas energias. Cada segundo da vida dele era vivido na premissa de se deixar banhar pela luz desta garota, e agora, lhe fora tirado o ar.
Não quer viver, não consegue respirar. Não sabe como seguir a sua vida sem a dela pra lhe alegrar. Era delirante e amargurante ela ter partido sem ao menos poder dizer pela primeira e última vez adeus. Ele queria por uma única vez poder olhar naqueles olhos dela e dizer tudo o que ele sentia. Todas as coisas que ele pensava, tudo o que ele escrevia ao invés de falar, todo o turbilhão de emoções que ela despertava em seu peito, tudo o que não veio a tona a tempo. Não sabia lidar, não conseguia se perdoar. A dor da perda apodreceu e consumiu sua alma aos poucos, pedaço por pedaço, num deleite mórbido e infeliz.

Confira o precursor espiritual deste texto: Paraíso.
Confira o sucessor espiritual deste texto: Lembranças.

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